Monografia

Entrevista Semiestruturada no TCC: Roteiro e Análise

Natan Soares12 min de leitura
Entrevista Semiestruturada no TCC: Roteiro e Análise

Você gravou a entrevista, agradeceu ao participante, guardou o áudio na pasta do TCC e seguiu para a próxima etapa do cronograma. Semanas depois, na hora de sentar para escrever os resultados, sobra um arquivo de 40 minutos de fala solta e nenhuma ideia clara de como transformar aquilo em dado de pesquisa. Isso acontece porque a entrevista semiestruturada no TCC não funciona como uma conversa qualquer — ela exige roteiro planejado, condução técnica e um método de análise definido antes da primeira pergunta ser feita.

Sem essa estrutura, o resultado é previsível. A banca lê um capítulo de resultados cheio de trechos de fala soltos, sem categorização, sem critério de seleção e sem ligação clara com os objetivos específicos do trabalho — e classifica aquilo como impressão pessoal do aluno, não como dado científico. É a diferença entre apresentar uma pesquisa e apresentar uma coleção de opiniões transcritas.

Este guia resolve isso na ordem em que o problema realmente aparece no seu cronograma: como montar o roteiro, como conduzir a entrevista sem perder o controle da conversa, o que fazer em relação à ética da pesquisa, como transcrever com consistência e, por fim, como analisar os dados com um método que a banca reconhece e aceita.

Você vai encontrar aqui:

O que é entrevista semiestruturada e quando ela é a escolha certa para o seu TCC

Entrevista semiestruturada é uma técnica de coleta de dados que combina perguntas-eixo definidas previamente a partir do referencial teórico com espaço para o entrevistador aprofundar respostas relevantes que surgem no meio da conversa. Ela fica entre dois extremos: a entrevista estruturada, engessada como um questionário oral, e a não estruturada, guiada apenas por um tema amplo, sem roteiro fixo.

Essa posição intermediária é o que torna a técnica tão usada em TCC. Ela dá controle suficiente para você não se perder do objetivo da pesquisa, mas também abre espaço para captar informação que um formulário fechado jamais captaria — a hesitação antes de responder, o exemplo espontâneo, a contradição entre o que o entrevistado diz e o que ele reforça depois.

Tipo de entrevistaRoteiroQuando usar no TCC
EstruturadaFixo, perguntas idênticas para todosQuando você precisa comparar respostas de forma padronizada, quase como um questionário aplicado em voz alta
SemiestruturadaPerguntas-eixo fixas + aprofundamento livreQuando o objetivo é compreender percepções, experiências ou processos, sem abrir mão de comparabilidade entre entrevistados
Não estruturadaApenas um tema guia, sem roteiro fechadoEm pesquisas exploratórias de estágio inicial, quando o problema de pesquisa ainda está sendo delimitado

Antes de escolher a técnica, vale confirmar se a pesquisa qualitativa é mesmo o caminho certo para o seu objeto — nem todo problema de pesquisa se resolve com entrevista. Se a sua questão central depende de volume amostral e generalização estatística, um questionário estruturado aplicado a uma amostra maior tende a servir melhor do que uma entrevista aprofundada com poucos participantes. Vale revisar a diferença entre pesquisa qualitativa e quantitativa antes de fechar essa decisão no seu projeto.

Na prática: se você pretende entrevistar mais de 20 ou 30 pessoas, repense a técnica. Entrevista semiestruturada gera muito material qualitativo por participante — acima de certo número, transcrever e analisar tudo com profundidade se torna inviável dentro do prazo de um TCC.

Como montar o roteiro de entrevista semiestruturada passo a passo

O roteiro não nasce do nada. Ele nasce dos seus objetivos específicos, que por sua vez nascem do referencial teórico que você já construiu. Se uma pergunta do roteiro não está claramente amarrada a um objetivo do trabalho, ela é curiosidade, não instrumento de pesquisa.

Um roteiro funcional costuma seguir esta estrutura:

  1. Bloco de abertura — apresentação da pesquisa em linguagem simples, reforço verbal do consentimento já formalizado por escrito, e uma ou duas perguntas de contexto para quebrar o gelo (tempo de atuação, formação, trajetória).
  2. Perguntas-eixo — uma para cada objetivo específico do TCC, formuladas de forma aberta, nunca induzindo a resposta.
  3. Perguntas de sondagem (probing) — não entram no roteiro escrito, mas ficam prontas na cabeça do entrevistador para aprofundar respostas curtas: "pode me dar um exemplo disso?", "e como isso aconteceu na prática?".
  4. Fechamento — uma pergunta aberta final, do tipo "há algo sobre o tema que eu não perguntei e você gostaria de comentar?". Essa pergunta sozinha, muitas vezes, traz o dado mais rico da entrevista inteira.

Quantas perguntas-eixo cabem nesse roteiro? Menos do que a maioria dos alunos imagina. Entre 6 e 10 perguntas-eixo bem construídas rendem mais material analisável do que 20 perguntas rasas — depois da décima pergunta, o entrevistado começa a responder por cansaço, não por reflexão, e a qualidade do dado despenca.

Erro comum: transformar cada pergunta-eixo em uma pergunta fechada disfarçada de aberta, do tipo "você acha que a falta de treinamento prejudica o processo, né?". Isso já entrega a resposta esperada. A versão neutra seria: "na sua percepção, o que mais influencia o resultado desse processo?".

Ética na pesquisa com entrevistados: TCLE, comitê de ética e Plataforma Brasil

Toda entrevista com pessoas reais é, tecnicamente, pesquisa envolvendo seres humanos. Isso significa que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) é obrigatório antes de qualquer coleta, independentemente da área do seu curso — o entrevistado precisa saber, por escrito, o objetivo da pesquisa, como os dados serão usados e que pode desistir a qualquer momento sem prejuízo.

Em cursos da área da saúde, e em boa parte das ciências sociais aplicadas, o projeto costuma precisar passar por avaliação de um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) via Plataforma Brasil, conforme estabelece a Resolução CNS nº 466/2012. Em outras áreas, a exigência pode ser dispensada ou simplificada, a depender das normas internas da sua instituição — não existe uma regra única válida para todo curso, o que torna essencial confirmar isso com seu orientador antes de agendar a primeira entrevista.

Atenção: mesmo quando o orientador dispensa a submissão formal ao comitê de ética, o TCLE assinado continua obrigatório. Iniciar a coleta sem esse documento compromete a validade metodológica da pesquisa e pode gerar questionamento direto da banca na defesa.

Quem precisar submeter o projeto ao sistema CEP/CONEP faz isso pela Plataforma Brasil, o sistema nacional único de registro dessas pesquisas. O prazo de análise varia por comitê, e isso costuma pesar no cronograma — vale entrar nesse processo assim que o roteiro estiver fechado, não depois.

Como conduzir a entrevista sem perder o controle do roteiro

Ter um bom roteiro não garante uma boa entrevista. Quem já orientou TCCs sabe que a maior dificuldade não está em escrever as perguntas, está em administrar a conversa sem parecer um interrogatório e sem deixar o entrevistado fugir completamente do tema.

Três posturas fazem diferença real na condução:

  • Deixe o silêncio trabalhar. Depois que o entrevistado termina de responder, espere de três a cinco segundos antes de falar de novo. Entrevistador iniciante tende a preencher esse silêncio com a próxima pergunta — e perde justamente o complemento espontâneo que costuma vir logo depois de uma pausa.
  • Não confirme nem discorde do conteúdo da resposta. Frases como "isso mesmo" ou "verdade" sinalizam ao entrevistado o que você quer ouvir, e isso contamina as respostas seguintes.
  • Registre, mas não reaja com expressão de surpresa ou desaprovação a respostas inesperadas. A entrevista qualitativa depende de o entrevistado se sentir livre para dizer algo fora do script.

E se o entrevistado começar a fugir completamente do tema? Volte com uma ponte suave, não com uma interrupção seca: "isso que você mencionou se conecta com algo que eu queria entender melhor — voltando a [tema da pergunta-eixo]...". Cortar bruscamente quebra o rapport construído até ali.

Dica prática: grave sempre em áudio, mesmo fazendo anotações. Anotação manual sozinha perde nuance de fala, tom e pausas — elementos que podem ser relevantes dependendo do método de análise escolhido depois.

Transcrição da entrevista: convenções, ferramentas e o que a banca espera

A transcrição não é uma etapa burocrática entre a coleta e a análise — ela já é uma decisão metodológica. Existem dois caminhos principais, e a escolha entre eles depende do método de análise que você vai usar na sequência.

Transcrição naturalizada organiza a fala em frases completas, remove vícios de linguagem ("é... tipo... né") e corrige pequenos deslizes gramaticais próprios da oralidade. É o formato mais comum quando o foco da análise é o conteúdo do que foi dito, como na análise de conteúdo de Bardin.

Transcrição literal preserva pausas, hesitações, repetições e sobreposições de fala, geralmente com marcações específicas. É exigida em pesquisas de análise do discurso ou linguística aplicada, onde a forma da fala também é dado de pesquisa, não só o conteúdo.

Exemplo de marcações usadas em transcrição literal:
[...]        trecho suprimido por não ser relevante ao recorte da pesquisa
(risos)      reação não verbal registrada
(inaudível)  trecho que não foi possível compreender no áudio
/            interrupção ou sobreposição de fala entre entrevistador e entrevistado

Transcrever manualmente uma hora de áudio pode levar de quatro a seis horas de trabalho. Uma ferramenta de conversão de voz para texto reduz bastante esse tempo, mas não substitui a revisão — reouça o áudio inteiro comparando com o texto gerado antes de considerar a transcrição pronta, porque termos técnicos, nomes próprios e sotaques regionais ainda geram erro em qualquer transcrição automática.

Ao citar um trecho da entrevista no capítulo de resultados, a NBR 10520:2023 orienta o uso da expressão "informação verbal" entre parênteses no corpo do texto, com nota de rodapé explicando a origem da fala — esse tipo de citação não entra na lista de referências, porque não é uma fonte publicada e recuperável por terceiros. As regras completas de formatação, incluindo o modelo exato da nota de rodapé, estão detalhadas na página de transcrição de entrevistas e depoimentos do Guia ABNT.

Como analisar os dados: análise de conteúdo (Bardin) e análise temática

Transcrição pronta não é análise. É matéria-prima. A etapa que realmente transforma fala em dado científico é a categorização — e aqui a maioria dos TCCs usa um entre dois métodos.

A análise de conteúdo na perspectiva de Bardin é o método mais aceito por bancas de TCC, justamente por ter um passo a passo formalizado e replicável. Ela se organiza em três fases:

  1. Pré-análise — leitura flutuante de todo o material, definição dos critérios de seleção dos trechos relevantes e formulação de hipóteses ou indicadores.
  2. Exploração do material — codificação dos trechos em unidades de sentido e agrupamento em categorias, seguindo regras de exclusividade (um trecho não pertence a duas categorias ao mesmo tempo) e exaustividade (todo o material relevante precisa caber em alguma categoria).
  3. Tratamento dos resultados e inferência — interpretação das categorias à luz do referencial teórico, conectando o que apareceu nas falas com os objetivos específicos da pesquisa.

A análise temática segue uma lógica parecida, mas mais flexível: identifica temas recorrentes ligados às perguntas de pesquisa, sem exigir o rigor formal de categorização exaustiva de Bardin. Costuma ser adequada em pesquisas exploratórias ou quando o prazo de execução é mais curto — mas exige justificativa teórica explícita para a escolha, não apenas critério de conveniência.

CritérioAnálise de conteúdo (Bardin)Análise temática
Rigor metodológico exigidoAlto — categorias exclusivas e exaustivasModerado — temas recorrentes, sem exigência formal de exaustividade
Tempo de execuçãoMaior, por causa da codificação sistemáticaMenor, mais direto
Aceitação em bancas de TCCMuito alta, é o padrão mais reconhecidoAlta, desde que justificada teoricamente
Melhor cenário de usoPesquisas com maior volume de dados e prazo mais confortávelPesquisas exploratórias ou com prazo mais apertado

Uma pesquisa publicada na Revista Educação e Realidade da SciELO descreve bem essa lógica de categorização: as categorias precisam obedecer à regra da homogeneidade, tratando do mesmo tema e sendo definidas de acordo com o problema de pesquisa e os objetivos do trabalho — não é possível criar categorias soltas, desconectadas do que a pesquisa se propôs a investigar.

Para organizar essa categorização sem se perder entre dezenas de trechos transcritos, vale montar um quadro conceitual cruzando cada categoria com os objetivos específicos e os trechos de fala que a sustentam. Isso facilita tanto a análise quanto a escrita do capítulo de resultados depois.

Dica prática: se uma fala parece se encaixar em duas categorias ao mesmo tempo, a categorização ainda não está bem definida. Volte e refine os critérios antes de seguir para a interpretação — categoria ambígua na análise vira parágrafo confuso no capítulo de resultados.

Conclusão

Entrevista semiestruturada que vira dado de pesquisa defensável na banca não depende de sorte. Depende de um roteiro amarrado aos objetivos específicos, de uma condução que preserva a fala espontânea do entrevistado, de uma transcrição consistente com o método de análise escolhido e de uma categorização — Bardin ou temática — que você consegue justificar teoricamente do início ao fim.

Se em algum desses pontos você sentir que está travando sozinho, especialmente na hora de decidir entre métodos de análise ou de estruturar o roteiro a partir dos seus objetivos específicos, contar com orientação acadêmica especializada pode ser o diferencial entre meses de retrabalho e uma coleta de dados bem resolvida logo na primeira tentativa.

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Perguntas Frequentes

Como citar este artigo

Use esta página como fonte no seu trabalho. A referência segue a NBR 6023 e a citação no texto, a NBR 10520 — a data de acesso é a de hoje.

Na lista de referências

SOARES, Natan. Entrevista Semiestruturada no TCC: Roteiro e Análise. TCC na Prática, 2026. Disponível em: https://meutccnapratica.com.br/blog/monografia/entrevista-semiestruturada-tcc-roteiro-transcricao-analise.

No corpo do texto

(SOARES, 2026)autor entre parênteses, no fim da frase

Soares (2026)autor dentro da frase