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Problema de Pesquisa do TCC: Como Formular Passo a Passo

Natan Soares11 min de leitura
Problema de Pesquisa do TCC: Como Formular Passo a Passo

O problema de pesquisa do TCC é a pergunta central que orienta toda a investigação — e é também o ponto onde a maioria dos alunos trava depois de já ter delimitado o tema. Você sabe sobre o que quer escrever, mas na hora de transformar essa ideia em uma pergunta clara e investigável, tudo parece escorregar entre o geral demais e o específico demais.

Sem um problema bem formulado, o TCC inteiro perde o rumo. A metodologia fica solta, os objetivos não têm o que perseguir, e a banca — que costuma ler o problema de pesquisa antes de qualquer outra coisa na introdução — identifica essa falta de foco já nas primeiras páginas. É um dos motivos mais recorrentes de retrabalho na fase de qualificação.

Neste guia você vai aprender o passo a passo para transformar um tema já delimitado em um problema de pesquisa consistente, com os critérios técnicos que uma banca espera encontrar, exemplos práticos em áreas diferentes e a distinção entre formular o problema para uma pesquisa qualitativa e para uma quantitativa.

Você vai encontrar aqui:

O que é o problema de pesquisa (e por que ele não é o mesmo que o tema)

Problema de pesquisa é a questão específica que o trabalho se propõe a responder — a pergunta que direciona a coleta de dados, a escolha da metodologia e a análise dos resultados. Ele nasce do tema, mas não se confunde com ele.

O tema é o assunto amplo. "Marketing digital para pequenas empresas" é um tema. "Quais estratégias de marketing digital influenciam a fidelização de clientes em pequenos comércios de Bezerros-PE entre 2023 e 2025?" é o problema de pesquisa — a pergunta que nasce dentro daquele tema, já com recorte temporal e espacial definido.

Essa distinção não é só uma questão de estilo. A NBR 15287:2025, que rege a apresentação de projetos de pesquisa, estabelece que a parte introdutória do projeto precisa apresentar o tema, o problema a ser abordado, as hipóteses quando cabíveis, os objetivos e a justificativa — todos como elementos distintos e articulados entre si. Confundir tema com problema é, na prática, quebrar essa coerência exigida pela norma logo na largada.

Se você ainda não delimitou o tema, formular o problema agora só vai gerar frustração. Comece pelo delimitador de temas de TCC, que ajuda a fechar o recorte temporal, espacial e populacional antes de partir para a pergunta.

Com o tema delimitado em mãos, o próximo passo é verificar se a pergunta que você tem em mente realmente atende aos critérios técnicos de um problema de pesquisa válido.

Os critérios de um problema de pesquisa válido

A literatura metodológica oferece dois conjuntos de critérios que se complementam bem na prática do TCC. O primeiro vem de Antônio Carlos Gil, referência consolidada em metodologia científica no Brasil, que define quatro requisitos: o problema deve ser claro e preciso, deve ser empírico — ou seja, observável na realidade —, deve ser suscetível de solução e deve estar delimitado a uma dimensão viável.

O segundo vem de Quivy e Campenhoudt, autores de referência para quem trabalha com a chamada "pergunta de partida". Para eles, uma boa pergunta precisa ser precisa, concisa e unívoca — compreendida da mesma forma por qualquer leitor —, além de realista em relação aos recursos e ao tempo disponíveis para a pesquisa.

Na prática, você pode transformar isso em um checklist rápido para testar seu problema:

  • Está em forma de pergunta? Se estiver como afirmação, provavelmente é um objetivo disfarçado.
  • Alguém de fora do seu curso entenderia a pergunta sem explicação adicional?
  • Existe dado, fonte ou campo real onde essa pergunta possa ser investigada?
  • Você consegue responder essa pergunta com o tempo e os recursos de um TCC de graduação?
  • A pergunta tem uma resposta óbvia ou já conhecida? Se sim, não é um problema de pesquisa.

Na prática de orientação, um problema de pesquisa mal formulado quase sempre falha em um destes dois pontos: ou é grande demais para o prazo do TCC, ou é uma afirmação disfarçada de pergunta que já vem com a resposta embutida.

Com os critérios claros, é hora de aplicar isso na prática — transformando o tema que você já delimitou em uma pergunta que passe nesse teste.

Passo a passo: como transformar o tema em problema de pesquisa

Este processo funciona para qualquer curso e qualquer abordagem metodológica. Siga a ordem:

  1. Releia o recorte do seu tema. Confirme o período, o local e o público que você já delimitou. O problema de pesquisa vai herdar exatamente esse recorte — não invente um novo.
  2. Identifique a variável ou fenômeno central. Dentro do tema, o que especificamente desperta sua curiosidade? Uma relação entre dois fatores? Uma percepção? Um comportamento?
  3. Converta a curiosidade em pergunta. Comece com "Como", "De que forma", "Qual a relação entre" ou "Em que medida". Evite perguntas fechadas de sim ou não.
  4. Aplique o checklist de Gil e Quivy. Revise clareza, viabilidade, delimitação e relevância.
  5. Reescreva em uma única frase interrogativa. Se precisar de mais de duas linhas, o problema ainda está amplo demais.

Uma fórmula que ajuda a organizar o raciocínio:

[Como / De que forma / Qual a relação entre] + [fenômeno ou variável central] + [contexto e recorte já delimitados]?

Depois de formular o problema, o passo natural seguinte é derivar dele o objetivo geral e os objetivos específicos — é para essa etapa que existe o gerador de objetivos com a Taxonomia de Bloom, que ajuda a manter a coerência entre a pergunta e o que o trabalho promete entregar.

A forma como você aplica esse passo a passo, no entanto, muda dependendo da abordagem metodológica escolhida. Vamos ver as duas separadamente.

Problema de pesquisa em pesquisa quantitativa: conectando com as hipóteses

Na abordagem quantitativa, o problema de pesquisa costuma relacionar duas ou mais variáveis mensuráveis e abre caminho direto para hipóteses testáveis estatisticamente. A pergunta já sinaliza o que precisará ser medido e comparado.

Um exemplo: "Qual a relação entre a adoção do home office e a produtividade percebida por colaboradores de empresas de médio porte no Recife entre 2023 e 2025?" Esse problema já aponta duas variáveis — adoção do home office e produtividade percebida — que serão trabalhadas em hipóteses como H1 (a adoção do home office está associada a maior produtividade percebida) e H2 (a associação varia conforme o setor da empresa).

Antes de fechar o problema quantitativo, vale revisar a literatura para confirmar que a relação entre as variáveis ainda representa uma lacuna real — não adianta formular uma pergunta cuja resposta já está bem estabelecida em estudos anteriores. O localizador de repositórios e periódicos acadêmicos ajuda a mapear rapidamente o que já foi publicado sobre o tema.

Erro comum na abordagem quantitativa: formular o problema como pergunta binária de sim ou não, do tipo "o home office aumenta a produtividade?". Isso limita a análise estatística e não deixa espaço para investigar graus de relação, moderadores ou exceções.

A lógica muda bastante quando a pesquisa segue por um caminho qualitativo, como você vai ver a seguir.

Problema de pesquisa em pesquisa qualitativa: sem hipóteses testáveis

Na pesquisa qualitativa, o problema investiga significados, percepções ou processos — não relações numéricas entre variáveis. Por isso, ele raramente vem acompanhado de hipóteses formais no sentido estatístico; o que existe, quando muito, são pressupostos teóricos que orientam o olhar do pesquisador.

Um exemplo: "Como professores da rede pública de Pernambuco percebem os desafios da inclusão de alunos com Transtorno do Espectro Autista no ensino fundamental?" Aqui não há variáveis a serem medidas e comparadas estatisticamente — há uma experiência humana a ser compreendida em profundidade, geralmente por meio de entrevistas, observação ou análise documental.

Formular bem esse tipo de problema exige cuidado redobrado com a delimitação teórica, já que a pergunta qualitativa tende a ser mais aberta por natureza. O quadro conceitual ajuda a mapear os conceitos centrais que sustentam essa pergunta antes de partir para o referencial teórico completo.

Alerta de norma prática: um problema qualitativo bem formulado nunca aceita resposta de sim ou não. Se a sua pergunta pode ser respondida assim, ela ainda não capturou a complexidade que a abordagem qualitativa se propõe a investigar.

Independentemente da abordagem escolhida, ver o processo aplicado a diferentes áreas do conhecimento ajuda a fixar o raciocínio. É o que fazemos a seguir.

Exemplos de problema de pesquisa por área de curso

A tabela abaixo mostra o mesmo processo — tema delimitado transformado em problema de pesquisa — aplicado a áreas diferentes, com a abordagem mais comum indicada.

Área do cursoTema já delimitadoProblema de pesquisaAbordagem
DireitoAplicação da Lei Maria da Penha em municípios do interior de PE (2020–2024)Quais fatores dificultam a efetividade das medidas protetivas em municípios do interior de Pernambuco?Qualitativa
AdministraçãoHome office e produtividade em empresas de médio porte no RecifeQual a relação entre a adoção do home office e a produtividade percebida por colaboradores?Quantitativa
EducaçãoInclusão de alunos com TEA em escolas públicas de PEComo professores da rede pública percebem os desafios da inclusão de alunos com TEA?Qualitativa
EnfermagemAdesão ao tratamento anti-hipertensivo em idosos na ESFQuais fatores influenciam a adesão ao tratamento entre idosos atendidos pela Estratégia Saúde da Família?Quali-quantitativa
Engenharia CivilUso de concreto reciclado em obras residenciais de pequeno porteÉ tecnicamente viável substituir agregado convencional por concreto reciclado em obras de pequeno porte?Quantitativa
Tecnologia da InformaçãoAdoção de IA generativa em pequenas empresas de softwareComo pequenas empresas de desenvolvimento de software estão utilizando IA generativa no processo de codificação?Qualitativa

Perceba um padrão: em todas as linhas, o problema herda o recorte do tema e o transforma em uma pergunta única, sem tentar responder duas coisas ao mesmo tempo. Depois de formular o seu, vale revisar o roadmap completo do trabalho — o Mapa da Mina do TCC mostra onde essa etapa se encaixa dentro do processo inteiro, do projeto à defesa.

Mesmo seguindo esse padrão, alguns erros se repetem com frequência e são exatamente o que costuma travar a aprovação do problema pela banca.

Erros comuns que fazem o problema de pesquisa ser reprovado

Alguns padrões de erro aparecem com tanta frequência que já dá para antecipá-los. Fique atento a estes:

  • Problema escrito como afirmação. "Este trabalho analisa o impacto do home office na produtividade" não é um problema — é um objetivo. Reescreva como pergunta.
  • Problema amplo demais. "Como a tecnologia afeta a educação?" cobre um campo de pesquisa inteiro, não um TCC. Falta recorte temporal, espacial ou populacional.
  • Problema com resposta óbvia. Se qualquer pessoa já sabe a resposta antes da pesquisa começar, não há o que investigar.
  • Problema desconectado dos objetivos. Quando a pergunta do problema não corresponde ao verbo do objetivo geral, a banca percebe a quebra de coerência já na leitura da introdução.
  • Problema inviável para o prazo do TCC. Pesquisas que exigem acesso a dados sigilosos, amostras muito grandes ou anos de coleta não cabem em um cronograma de graduação.

O erro que mais gera retrabalho na qualificação não é a falta de originalidade — é a falta de coerência entre problema, objetivos e metodologia. Um problema bem formulado, mas que não dialoga com o resto do projeto, obriga a reescrever tudo de novo.

Conclusão

Formular o problema de pesquisa é menos sobre criatividade e mais sobre método: partir do tema delimitado, aplicar os critérios de clareza, viabilidade e relevância, e escrever uma única pergunta que a metodologia do seu TCC seja capaz de responder. O passo a passo deste guia funciona tanto para pesquisas quantitativas, que buscam relações mensuráveis entre variáveis, quanto para qualitativas, que investigam significados e percepções.

Se mesmo seguindo o processo você continuar travado — ou se o seu orientador estiver sinalizando que o problema ainda não está maduro — vale considerar apoio especializado nessa etapa. Contar com orientação acadêmica estruturada pode ser o diferencial entre passar meses reformulando a mesma pergunta e seguir com segurança para o referencial teórico.

Para continuar avançando nas etapas seguintes do trabalho, confira os outros artigos sobre monografia aqui no blog.

Perguntas Frequentes