Problema de Pesquisa do TCC: Como Formular Passo a Passo

O problema de pesquisa do TCC é a pergunta central que orienta toda a investigação — e é também o ponto onde a maioria dos alunos trava depois de já ter delimitado o tema. Você sabe sobre o que quer escrever, mas na hora de transformar essa ideia em uma pergunta clara e investigável, tudo parece escorregar entre o geral demais e o específico demais.
Sem um problema bem formulado, o TCC inteiro perde o rumo. A metodologia fica solta, os objetivos não têm o que perseguir, e a banca — que costuma ler o problema de pesquisa antes de qualquer outra coisa na introdução — identifica essa falta de foco já nas primeiras páginas. É um dos motivos mais recorrentes de retrabalho na fase de qualificação.
Neste guia você vai aprender o passo a passo para transformar um tema já delimitado em um problema de pesquisa consistente, com os critérios técnicos que uma banca espera encontrar, exemplos práticos em áreas diferentes e a distinção entre formular o problema para uma pesquisa qualitativa e para uma quantitativa.
Você vai encontrar aqui:
O que é o problema de pesquisa (e por que ele não é o mesmo que o tema)
Problema de pesquisa é a questão específica que o trabalho se propõe a responder — a pergunta que direciona a coleta de dados, a escolha da metodologia e a análise dos resultados. Ele nasce do tema, mas não se confunde com ele.
O tema é o assunto amplo. "Marketing digital para pequenas empresas" é um tema. "Quais estratégias de marketing digital influenciam a fidelização de clientes em pequenos comércios de Bezerros-PE entre 2023 e 2025?" é o problema de pesquisa — a pergunta que nasce dentro daquele tema, já com recorte temporal e espacial definido.
Essa distinção não é só uma questão de estilo. A NBR 15287:2025, que rege a apresentação de projetos de pesquisa, estabelece que a parte introdutória do projeto precisa apresentar o tema, o problema a ser abordado, as hipóteses quando cabíveis, os objetivos e a justificativa — todos como elementos distintos e articulados entre si. Confundir tema com problema é, na prática, quebrar essa coerência exigida pela norma logo na largada.
Se você ainda não delimitou o tema, formular o problema agora só vai gerar frustração. Comece pelo delimitador de temas de TCC, que ajuda a fechar o recorte temporal, espacial e populacional antes de partir para a pergunta.
Com o tema delimitado em mãos, o próximo passo é verificar se a pergunta que você tem em mente realmente atende aos critérios técnicos de um problema de pesquisa válido.
Os critérios de um problema de pesquisa válido
A literatura metodológica oferece dois conjuntos de critérios que se complementam bem na prática do TCC. O primeiro vem de Antônio Carlos Gil, referência consolidada em metodologia científica no Brasil, que define quatro requisitos: o problema deve ser claro e preciso, deve ser empírico — ou seja, observável na realidade —, deve ser suscetível de solução e deve estar delimitado a uma dimensão viável.
O segundo vem de Quivy e Campenhoudt, autores de referência para quem trabalha com a chamada "pergunta de partida". Para eles, uma boa pergunta precisa ser precisa, concisa e unívoca — compreendida da mesma forma por qualquer leitor —, além de realista em relação aos recursos e ao tempo disponíveis para a pesquisa.
Na prática, você pode transformar isso em um checklist rápido para testar seu problema:
- Está em forma de pergunta? Se estiver como afirmação, provavelmente é um objetivo disfarçado.
- Alguém de fora do seu curso entenderia a pergunta sem explicação adicional?
- Existe dado, fonte ou campo real onde essa pergunta possa ser investigada?
- Você consegue responder essa pergunta com o tempo e os recursos de um TCC de graduação?
- A pergunta tem uma resposta óbvia ou já conhecida? Se sim, não é um problema de pesquisa.
Na prática de orientação, um problema de pesquisa mal formulado quase sempre falha em um destes dois pontos: ou é grande demais para o prazo do TCC, ou é uma afirmação disfarçada de pergunta que já vem com a resposta embutida.
Com os critérios claros, é hora de aplicar isso na prática — transformando o tema que você já delimitou em uma pergunta que passe nesse teste.
Passo a passo: como transformar o tema em problema de pesquisa
Este processo funciona para qualquer curso e qualquer abordagem metodológica. Siga a ordem:
- Releia o recorte do seu tema. Confirme o período, o local e o público que você já delimitou. O problema de pesquisa vai herdar exatamente esse recorte — não invente um novo.
- Identifique a variável ou fenômeno central. Dentro do tema, o que especificamente desperta sua curiosidade? Uma relação entre dois fatores? Uma percepção? Um comportamento?
- Converta a curiosidade em pergunta. Comece com "Como", "De que forma", "Qual a relação entre" ou "Em que medida". Evite perguntas fechadas de sim ou não.
- Aplique o checklist de Gil e Quivy. Revise clareza, viabilidade, delimitação e relevância.
- Reescreva em uma única frase interrogativa. Se precisar de mais de duas linhas, o problema ainda está amplo demais.
Uma fórmula que ajuda a organizar o raciocínio:
[Como / De que forma / Qual a relação entre] + [fenômeno ou variável central] + [contexto e recorte já delimitados]?
Depois de formular o problema, o passo natural seguinte é derivar dele o objetivo geral e os objetivos específicos — é para essa etapa que existe o gerador de objetivos com a Taxonomia de Bloom, que ajuda a manter a coerência entre a pergunta e o que o trabalho promete entregar.
A forma como você aplica esse passo a passo, no entanto, muda dependendo da abordagem metodológica escolhida. Vamos ver as duas separadamente.
Problema de pesquisa em pesquisa quantitativa: conectando com as hipóteses
Na abordagem quantitativa, o problema de pesquisa costuma relacionar duas ou mais variáveis mensuráveis e abre caminho direto para hipóteses testáveis estatisticamente. A pergunta já sinaliza o que precisará ser medido e comparado.
Um exemplo: "Qual a relação entre a adoção do home office e a produtividade percebida por colaboradores de empresas de médio porte no Recife entre 2023 e 2025?" Esse problema já aponta duas variáveis — adoção do home office e produtividade percebida — que serão trabalhadas em hipóteses como H1 (a adoção do home office está associada a maior produtividade percebida) e H2 (a associação varia conforme o setor da empresa).
Antes de fechar o problema quantitativo, vale revisar a literatura para confirmar que a relação entre as variáveis ainda representa uma lacuna real — não adianta formular uma pergunta cuja resposta já está bem estabelecida em estudos anteriores. O localizador de repositórios e periódicos acadêmicos ajuda a mapear rapidamente o que já foi publicado sobre o tema.
Erro comum na abordagem quantitativa: formular o problema como pergunta binária de sim ou não, do tipo "o home office aumenta a produtividade?". Isso limita a análise estatística e não deixa espaço para investigar graus de relação, moderadores ou exceções.
A lógica muda bastante quando a pesquisa segue por um caminho qualitativo, como você vai ver a seguir.
Problema de pesquisa em pesquisa qualitativa: sem hipóteses testáveis
Na pesquisa qualitativa, o problema investiga significados, percepções ou processos — não relações numéricas entre variáveis. Por isso, ele raramente vem acompanhado de hipóteses formais no sentido estatístico; o que existe, quando muito, são pressupostos teóricos que orientam o olhar do pesquisador.
Um exemplo: "Como professores da rede pública de Pernambuco percebem os desafios da inclusão de alunos com Transtorno do Espectro Autista no ensino fundamental?" Aqui não há variáveis a serem medidas e comparadas estatisticamente — há uma experiência humana a ser compreendida em profundidade, geralmente por meio de entrevistas, observação ou análise documental.
Formular bem esse tipo de problema exige cuidado redobrado com a delimitação teórica, já que a pergunta qualitativa tende a ser mais aberta por natureza. O quadro conceitual ajuda a mapear os conceitos centrais que sustentam essa pergunta antes de partir para o referencial teórico completo.
Alerta de norma prática: um problema qualitativo bem formulado nunca aceita resposta de sim ou não. Se a sua pergunta pode ser respondida assim, ela ainda não capturou a complexidade que a abordagem qualitativa se propõe a investigar.
Independentemente da abordagem escolhida, ver o processo aplicado a diferentes áreas do conhecimento ajuda a fixar o raciocínio. É o que fazemos a seguir.
Exemplos de problema de pesquisa por área de curso
A tabela abaixo mostra o mesmo processo — tema delimitado transformado em problema de pesquisa — aplicado a áreas diferentes, com a abordagem mais comum indicada.
| Área do curso | Tema já delimitado | Problema de pesquisa | Abordagem |
|---|---|---|---|
| Direito | Aplicação da Lei Maria da Penha em municípios do interior de PE (2020–2024) | Quais fatores dificultam a efetividade das medidas protetivas em municípios do interior de Pernambuco? | Qualitativa |
| Administração | Home office e produtividade em empresas de médio porte no Recife | Qual a relação entre a adoção do home office e a produtividade percebida por colaboradores? | Quantitativa |
| Educação | Inclusão de alunos com TEA em escolas públicas de PE | Como professores da rede pública percebem os desafios da inclusão de alunos com TEA? | Qualitativa |
| Enfermagem | Adesão ao tratamento anti-hipertensivo em idosos na ESF | Quais fatores influenciam a adesão ao tratamento entre idosos atendidos pela Estratégia Saúde da Família? | Quali-quantitativa |
| Engenharia Civil | Uso de concreto reciclado em obras residenciais de pequeno porte | É tecnicamente viável substituir agregado convencional por concreto reciclado em obras de pequeno porte? | Quantitativa |
| Tecnologia da Informação | Adoção de IA generativa em pequenas empresas de software | Como pequenas empresas de desenvolvimento de software estão utilizando IA generativa no processo de codificação? | Qualitativa |
Perceba um padrão: em todas as linhas, o problema herda o recorte do tema e o transforma em uma pergunta única, sem tentar responder duas coisas ao mesmo tempo. Depois de formular o seu, vale revisar o roadmap completo do trabalho — o Mapa da Mina do TCC mostra onde essa etapa se encaixa dentro do processo inteiro, do projeto à defesa.
Mesmo seguindo esse padrão, alguns erros se repetem com frequência e são exatamente o que costuma travar a aprovação do problema pela banca.
Erros comuns que fazem o problema de pesquisa ser reprovado
Alguns padrões de erro aparecem com tanta frequência que já dá para antecipá-los. Fique atento a estes:
- Problema escrito como afirmação. "Este trabalho analisa o impacto do home office na produtividade" não é um problema — é um objetivo. Reescreva como pergunta.
- Problema amplo demais. "Como a tecnologia afeta a educação?" cobre um campo de pesquisa inteiro, não um TCC. Falta recorte temporal, espacial ou populacional.
- Problema com resposta óbvia. Se qualquer pessoa já sabe a resposta antes da pesquisa começar, não há o que investigar.
- Problema desconectado dos objetivos. Quando a pergunta do problema não corresponde ao verbo do objetivo geral, a banca percebe a quebra de coerência já na leitura da introdução.
- Problema inviável para o prazo do TCC. Pesquisas que exigem acesso a dados sigilosos, amostras muito grandes ou anos de coleta não cabem em um cronograma de graduação.
O erro que mais gera retrabalho na qualificação não é a falta de originalidade — é a falta de coerência entre problema, objetivos e metodologia. Um problema bem formulado, mas que não dialoga com o resto do projeto, obriga a reescrever tudo de novo.
Conclusão
Formular o problema de pesquisa é menos sobre criatividade e mais sobre método: partir do tema delimitado, aplicar os critérios de clareza, viabilidade e relevância, e escrever uma única pergunta que a metodologia do seu TCC seja capaz de responder. O passo a passo deste guia funciona tanto para pesquisas quantitativas, que buscam relações mensuráveis entre variáveis, quanto para qualitativas, que investigam significados e percepções.
Se mesmo seguindo o processo você continuar travado — ou se o seu orientador estiver sinalizando que o problema ainda não está maduro — vale considerar apoio especializado nessa etapa. Contar com orientação acadêmica estruturada pode ser o diferencial entre passar meses reformulando a mesma pergunta e seguir com segurança para o referencial teórico.
Para continuar avançando nas etapas seguintes do trabalho, confira os outros artigos sobre monografia aqui no blog.
