Voz Passiva no TCC: Quando Usar e Quando Evitar

Parece simples: "TCC tem que ser escrito em voz passiva." Só que essa regra não existe em lugar nenhum — nem na ABNT, nem, provavelmente, no manual do seu curso. O que existe é uma exigência de impessoalidade, e voz passiva é apenas um dos recursos para atingir isso, não o único, e nem sempre o melhor.
Esse mal-entendido é um dos que mais trava aluno na hora de escrever. Você tenta forçar "foi realizado", "foi analisado", "foi identificado" em toda frase da metodologia até o texto ficar pesado, repetitivo e, ironicamente, menos claro do que se tivesse usado outros recursos de escrita impessoal.
Este guia mostra a diferença entre voz passiva analítica e sintética, quando cada uma funciona melhor, quando evitar a passiva completamente, o que muda entre exatas e humanas, e traz exercícios práticos de reescrita para você aplicar direto no seu TCC.
Você vai encontrar aqui:
O Mito da "Voz Passiva Obrigatória" no TCC
Impessoalidade é a exigência de que o texto acadêmico não centre a ação no autor — nada de "eu acho", "eu decidi fazer assim". O objetivo é que o foco fique no objeto de estudo, não em quem escreve. Voz passiva é só uma das formas de alcançar isso. Não é sinônimo dela.
Existem pelo menos quatro recursos que cumprem essa função, e usá-los alternadamente deixa o texto mais variado e mais fácil de ler do que repetir "foi feito" a cada parágrafo:
- Voz passiva analítica — "Os dados foram coletados em campo."
- Voz passiva sintética (pronominal) — "Coletaram-se os dados em campo."
- Voz ativa impessoal — "Este trabalho coletou dados em campo."
- Terceira pessoa com sujeito indeterminado — "Sabe-se que a coleta de dados em campo exige planejamento prévio."
Nenhuma norma da ABNT determina "use sempre voz passiva". O que a ABNT e a tradição acadêmica pedem é impessoalidade — e um texto que alterna entre esses quatro recursos costuma soar mais natural do que um texto inteiro em voz passiva.
Antes de decidir qual usar em cada trecho, vale entender a diferença técnica entre os dois tipos de voz passiva — porque a maioria dos alunos conhece só um deles.
Voz Passiva Analítica x Sintética: a Diferença Que Poucos Alunos Sabem
A voz passiva analítica é a mais ensinada na escola: verbo ser (ou estar) seguido de particípio. "O questionário foi aplicado", "os resultados foram discutidos". É reconhecível de longe, mas também é a que mais pesa o texto quando repetida em excesso.
A voz passiva sintética, também chamada de pronominal, usa um verbo transitivo direto acompanhado do pronome "se". "Aplicou-se o questionário", "discutiram-se os resultados". Ela é mais enxuta — menos palavras, mesmo sentido — e costuma soar menos burocrática em sequência de frases.
| Situação | Voz passiva analítica | Voz passiva sintética |
|---|---|---|
| Coleta de dados | Os dados foram coletados por meio de questionário. | Coletaram-se os dados por meio de questionário. |
| Análise de resultados | Os resultados foram analisados com apoio do software X. | Analisaram-se os resultados com apoio do software X. |
| Validação de instrumento | O instrumento foi validado por três especialistas. | Validou-se o instrumento com três especialistas. |
Regra prática: quando a frase começar a ficar longa demais com "foi + particípio + por", teste a versão sintética. Na maioria dos casos, ela encurta a frase sem perder precisão.
Com as duas formas de passiva mapeadas, o próximo passo é decidir em quais momentos do TCC cada uma se encaixa melhor.
Quando Usar Voz Passiva no TCC (Com Exemplos de Antes e Depois)
A voz passiva funciona bem quando o "quem fez" é irrelevante para o argumento — o foco está no procedimento, não em quem o executou. Isso acontece com frequência na metodologia e na descrição de resultados.
Exemplo 1 — Metodologia:
- Antes: "Eu apliquei o questionário em duas turmas do terceiro ano."
- Depois: "O questionário foi aplicado em duas turmas do terceiro ano."
Exemplo 2 — Coleta de dados:
- Antes: "Nós entrevistamos 12 professores da rede pública municipal."
- Depois: "Foram entrevistados 12 professores da rede pública municipal."
Exemplo 3 — Resultados:
- Antes: "Nós identificamos três categorias de resposta nas entrevistas."
- Depois: "Identificaram-se três categorias de resposta nas entrevistas."
A voz passiva se justifica quando o agente da ação (quem fez) já está implícito pelo contexto — você, o pesquisador — e repeti-lo em cada frase se torna redundante, não informativo.
O problema começa quando essa lógica é aplicada sem critério, mesmo nos momentos em que o texto pede outra coisa.
Quando Evitar a Voz Passiva (e o Que Usar no Lugar)
Aqui está o erro que a maioria comete: usar voz passiva mesmo quando ela some com uma informação que a banca precisa. "O instrumento foi validado" não diz por quem, nem como — e se a validação foi feita por especialistas específicos, essa informação é metodologicamente relevante, não um detalhe descartável.
Quando o agente importa para o rigor metodológico:
- Evite: "O questionário foi validado."
- Prefira: "Três especialistas em educação inclusiva validaram o questionário."
Quando a passiva encadeada deixa o texto pesado:
- Evite: "Foi realizado um estudo em que foram coletados dados que foram posteriormente analisados e interpretados à luz da literatura."
- Prefira: "O estudo coletou, analisou e interpretou os dados à luz da literatura."
Quando você quer assumir uma posição argumentativa na discussão ou na conclusão:
- Evite: "Foi observado que os resultados corroboram a hipótese inicial."
- Prefira: "Este trabalho demonstra que os resultados corroboram a hipótese inicial."
Voz passiva em excesso não deixa o texto mais "acadêmico" — deixa mais difícil de ler. Clareza tem mais peso do que formalidade artificial na hora de a banca avaliar sua escrita.
Essa escolha entre usar ou evitar também depende de algo que muda bastante conforme a área do seu curso.
Voz Passiva por Área do Conhecimento: Exatas x Humanas
Você pode estar pensando: se meu curso é de humanas, isso muda tudo? Muda bastante — mas não dá liberdade total, e vale confirmar sempre com seu orientador antes de assumir qualquer regra como certa.
Em cursos de exatas, engenharia e saúde, a tradição de evitar a primeira pessoa e manter a voz passiva na metodologia é mais rígida. Protocolos experimentais, procedimentos técnicos e descrição de amostras costumam seguir esse padrão de forma quase automática nesses cursos.
Em humanas e ciências sociais aplicadas, existe mais espaço para variação. Pesquisas qualitativas, em especial, frequentemente aceitam primeira pessoa do plural ("analisamos", "identificamos") como forma de reconhecer a presença do pesquisador na interpretação dos dados — algo que a própria tradição positivista da voz passiva tende a apagar.
Diferença prática pouco discutida: nas ciências humanas, esconder totalmente o pesquisador atrás da voz passiva pode até enfraquecer o argumento, já que parte da pesquisa qualitativa reconhece a interpretação como parte do método. Isso não acontece do mesmo jeito nas ciências exatas.
Independentemente da área, alguns erros de voz passiva se repetem com uma frequência alta demais para ignorar.
Erros Mais Comuns ao Usar Voz Passiva no TCC
O erro mais frequente não é gramatical — é conceitual: confundir voz passiva com terceira pessoa. São categorias diferentes. Terceira pessoa é sobre quem fala no texto (ele/ela, em vez de eu/nós). Voz passiva é sobre a estrutura da frase (o sujeito recebe a ação em vez de praticá-la). Dá para escrever em terceira pessoa usando voz ativa — "este trabalho analisa" é terceira pessoa e voz ativa ao mesmo tempo.
Outros erros recorrentes:
- Repetição mecânica de "foi feito", "foi realizado", "foi identificado" em sequência, sem alternar com voz sintética ou ativa impessoal
- Encadear passivas dentro da mesma frase, criando períodos longos e difíceis de acompanhar
- Usar voz passiva no resumo — a NBR 6028, norma específica para resumos, recomenda justamente o oposto: verbo na voz ativa combinado à terceira pessoa do singular. É comum o aluno escrever o resumo inteiro em passiva por hábito, exatamente na seção em que a norma pede o contrário
- Ocultar o agente quando ele é metodologicamente relevante, como no exemplo da validação de instrumento visto anteriormente
Poucos alunos sabem que a NBR 6028 pede voz ativa no resumo. Revisar esse detalhe é um ajuste rápido que corrige um erro presente em boa parte dos TCCs — e que passa despercebido até mesmo em revisões mais atentas.
O Guia ABNT do site reúne outras convenções de redação acadêmica além dessa, caso você queira revisar a estrutura completa do trabalho antes de seguir para a fase final de revisão.
Exercício Prático: Reescreva Estas Frases do Seu TCC
Ensaiar com frases genéricas ajuda a fixar a lógica antes de aplicar no seu próprio texto. Use a tabela abaixo como modelo — identifique o padrão de cada reescrita e aplique nas frases do seu TCC que ainda soam repetitivas ou pesadas.
| Frase original | Problema | Reescrita sugerida |
|---|---|---|
| Eu percebi que os dados indicavam uma tendência. | 1ª pessoa, informal | Os dados indicaram uma tendência. / Este trabalho identificou uma tendência nos dados. |
| Foi feito um levantamento que foi analisado e que foi discutido no capítulo 4. | Passiva encadeada, pesada | O levantamento foi analisado e discutido no capítulo 4. |
| O instrumento foi validado. | Agente relevante omitido | Dois especialistas em metodologia validaram o instrumento. |
| Nós concluímos que a hipótese se confirma. | 1ª pessoa em conclusão (verificar se seu curso aceita) | Este trabalho conclui que a hipótese se confirma. / Conclui-se que a hipótese se confirma. |
| Foi apresentado neste resumo o objetivo da pesquisa. | Passiva no resumo (contraria a NBR 6028) | Este resumo apresenta o objetivo da pesquisa. |
Se quiser automatizar parte dessa revisão, o Analisador de Escrita Acadêmica do site sinaliza justamente esse tipo de repetição e ajuda a identificar trechos com voz passiva em excesso ao longo do texto todo, não só nos exemplos que você já percebeu sozinho.
Conclusão
Voz passiva não é obrigação — é ferramenta. Use a analítica e a sintética quando o "quem fez" for irrelevante, alterne com voz ativa impessoal para variar o ritmo do texto, e preserve o agente da ação sempre que ele carregar informação metodológica relevante. Preste atenção especial ao resumo: é a seção em que a norma pede justamente o oposto do que a maioria dos alunos assume por hábito.
Se depois de revisar tudo isso você ainda sentir insegurança sobre o estilo de escrita do seu TCC como um todo, contar com orientação acadêmica especializada pode ajudar a alinhar essas escolhas de redação com o que o seu curso espera, sem abrir mão da sua própria voz enquanto pesquisador.
Do tema à defesa, sem nunca ficar perdido
A Trilha do TCC divide o trabalho em 10 etapas, do tema à defesa. Cada uma diz o que fazer, entrega o arquivo pronto daquela parte e mostra como saber que você terminou.
- Modelos Word ABNT
- 3 planilhas que salvam o progresso
- Slides da defesa
- Delimitador de Temas PRO
Para revisar outras convenções de escrita e formatação, vale conferir os artigos sobre ABNT e os materiais gratuitos do site, incluindo o e-book com os principais erros gramaticais em TCC.
Perguntas Frequentes
Como citar este artigo
Use esta página como fonte no seu trabalho. A referência segue a NBR 6023 e a citação no texto, a NBR 10520 — a data de acesso é a de hoje.
SOARES, Natan. Voz Passiva no TCC: Quando Usar e Quando Evitar. TCC na Prática, 2026. Disponível em: https://meutccnapratica.com.br/blog/abnt/voz-passiva-no-tcc-quando-usar-e-evitar.
(SOARES, 2026)autor entre parênteses, no fim da frase
Soares (2026)autor dentro da frase
